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[Review] A Primeira Temporada de Westworld (o novo Lost)

Aviso aos viajantes, cowboys e cowgirls: o texto contém spoilers!

Westworld foi uma das grandes surpresas de 2016, finalmente uma que não é produção Netflix. Com o fim da temporada de Game of Thrones, a HBO conseguiu um substituto à altura para os domingos a noite. E não era apenas mais uma produção original HBO. Era um remake de um antigo filme, agora desenvolvido pelos gigantes do cinema e da TV, J.J. Abrams (Lost) e Jonathan Nolan (Person of Interest), este irmão do diretor de cinema Christopher Nolan (Trilogia The Dark Knight; A Origem). É pouco? Insira no elenco Anthony Hopkins (Hannibal), Ed Harris (Uma Mente Brilhante), Evan Rachel Wood (Across the Universe) e alguns outros rostos conhecidos. Para os brasileiros, tem até um toque especial de Rodrigo Santoro.


O piloto deixou a trama bem clara: após alguns longos minutos de total desentendimento, percebemos que é uma série sobre Inteligência Artificial (I.A.). Robert Ford (Hopkins) criou um parque que simula o velho oeste, habitado por robôs, ou, como são chamados, anfitriões (hosts). São eles que recebem e convivem com os humanos que visitam o parque, no geral para se divertirem sexualmente ou simplesmente matando aleatoriamente. É claro que logo no primeiro episódio conhecemos o problema: alguns hosts começam a desenvolver consciência e sair do roteiro programado pelo staff do parque. É assim que conhecemos Dolores, a protagonista e primeira host construída para Westworld. Já temos o cenário da "revolução das máquinas" ou algo do gênero.

No entanto, é somente no segundo episódio que conhecemos Willian, o mocinho que visita o parque pela primeira vez e escolhe o chapéu branco ao invés do preto (note a primeira das muitas semelhanças com Lost). Ao mesmo tempo, acompanhamos a jornada de um senhor de meia idade pelo parque, de chapéu preto e instinto assassino, que está lá para descobrir um jogo além do entretenimento comum do parque. Seu objetivo é chegar ao labirinto.


É aqui que Westworld traz sua grande inovação, sua marca na arte de contar uma história: nós acompanhamos, simultaneamente, 3 linhas temporais, 3 épocas distintas que possuem alguns personagens em comum, outros não. Mas isso não é de fácil percepção e é preciso uma atenção imensa do telespectador para as mudanças sutis nas cenas, a exemplo de quando Dolores coloca uma arma na gaveta e no instante seguinte, quando abre novamente a gaveta, a arma não está mais lá. 

Os 3 primeiros episódios são bem lentos e confusos. É a partir do episódio 4 que as coisas começam a ficar menos nebulosas e, consequentemente, mais interessantes. Se J.J. aprendeu algo com Lost é não demorar demais para dar algumas respostas. Porém, dessa vez ele talvez tenha entregado todas cedo demais.


É no episódio 7 que acontece o tão aguardado plot twist: o engenheiro e braço direito de Ford, Bernard, é um host também! Esse é o grande ápice da série, quando nós, telespectadores, questionamos absolutamente tudo. Quem é real, quem não é? Podemos confiar em Ford? Até então o dono do parque parece ser o vilão da história, em oposição ao misterioso Arnold, seu antigo sócio até aqui não revelado, mas que sabemos, queria um rumo diferente para o parque e para os hosts. Parece até Jacob e o Homem de Preto brincando de marionete com os sobreviventes da Ilha (mais um alô para os órfãos de Lost).

E por falar em Homem de Preto, o personagem de Ed Harris foi, provavelmente, a primeira teoria certeira que começou a rodar pela Internet: ele seria o próprio Willian, no futuro. E em mais uma referência à Lost, temos um outro jogador nessa história, a empresa Delos, tão misteriosa quanto uma Iniciativa Dharma. Antes de atingirmos o grandioso episódio 10, mais uma teoria foi confirmada: Bernard é um "robô" do antigo sócio de Ford, Arnold (parabéns aos aficcionados de plantão que perceberam o anagrama dos nomes).

Graças ao precioso recurso da Internet, redes sociais e etc., os bons tempos de Lost voltaram e a interação imensa dos fãs, que ajudaram a tornar Westworld um fenômeno mundial em pouquíssimo tempo, ajudou a esclarecer as 3 linhas temporais que tínhamos na série: uma primeira época antes do parque abrir, em que Arnold cria Dolores; um tempo posterior onde Willian se aventura no parque pela primeira vez; e o presente, onde Ford começa a presenciar a consciência de seus hosts, a revolução liderada por Maeve e a jornada do Homem de Preto.

O último episódio parecia ter muito a concluir e responder. E tinha, mas soube cumprir sua missão de modo simples e elegante. A primeira metade se atenta a responder e oficializar as teorias que há muito circulavam pela rede: Willian é o Homem de Preto e seu objetivo era o mesmo de Arnold, trazer a autoconsciência dos hosts (assim Dolores lembraria dele e suas aventuras teriam oponentes de verdade, não apenas programados para perderem). Já a segunda metade trouxe a grande e única resposta de toda a temporada: Ford era quem liderava (e programava!) a revolução dos hosts, despertando neles as lembranças que, como explicado por Arnold, levam à autoconsciência (também sendo o centro do labirinto). Sua grande nova narrativa? Simplesmente parar de reprimir a consciência dos hosts e os deixar agirem sozinhos, por escolhas próprias. Maeve, finalmente fora do parque (ou dos parques, já que descobrimos serem mais de um, não é, Samurai World!), seguiu até o trem como fora programada, mas escolheu voltar e procurar sua filha de uma narrativa passada; Dolores, que foi obrigada a matar Arnold já que era meia Dolores, meia Wyatt, pode se encontrar e escolher matar Ford, cumprindo sua expectativa e encerrando sua última narrativa, já que seria obrigado a se aposentar. Como havia prometido, Willian gostaria dessa nova história, afinal, finalmente os hosts têm vontade própria. Sua cena do discurso, a trilha e as atuações foram orquestradas perfeitamente (sinto cheiro de muitos Emmy e Globos de Ouro a caminho). No final das contas, a história da série não é sobre robôs, mas apenas sobre a natureza humana (assim como qual outra série? Claro, Lost).

Westworld fechou sua narrativa de 10 episódios em um arco perfeito. Segunda temporada para que? Acredito que alguns fãs ficaram decepcionados por sentirem falta de um "gancho", uma pergunta sem resposta que levasse para a próxima temporada, mas para quem ainda reclama de Lost, tá aí uma série que respondeu absolutamente tudo em sua primeira temporada. Quando a nova chegar, em 2018, provavelmente será quase que uma nova série, a não ser que sejamos tão surpreendidos quanto fomos nessa. Westworld mais pareceu um "filmão" do que uma série. Já era de se esperar, pelo calibre de Anthony Hopkins, que seu personagem não duraria muito, mas o desenvolvimento de Ford foi absurdo, um recorde de trabalho no personagem em tão pouco tempo, apenas 10 episódios. Vimos o criador do parque indo de empresário que via seus hosts como produtos à aceitação de que estava errado perante seu sócio, Arnold, e aderindo (e liderando) a revolução das consciências nos hosts. Assim também aconteceu com Willian, de mocinho nada violento à assassino em série, do chapéu e roupas brancas para as pretas. Mais uma vez lembro de Lost e das transformações que seus personagens viveram, como Jack, que de total descrente na Ilha termina por a salvar e morrer por ela, como Ford por suas criações, ainda que isso signifique o possível fim do parque (existe Westworld sem Ford?)


Apesar de estar sem expectativas para a segunda temporada, bato palmas (ou tiro o chapéu) para Westworld, por sua inovação com a cronologia da história, a riqueza nos detalhes e a sutileza dos personagens, além de claro, a produção técnica como um todo (fotografia, figurino, efeitos especiais).

E você, caro leitor, pensou em algo diferente? Não gostou do final, reparou algo que ninguém viu? Quer que algum personagem volte na segunda temporada, talvez como host? Tem expectativas para Maeve? Deixe seu comentário! Essa série ainda vai dar muito o que falar!

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