LOST: 4 anos de saudades da série revolucionária [Especial]

Dica para fã: antes de ler o texto, dê play na trilha da série para ouví-la enquanto embarca nessa singela homenagem. Sugestões aqui, here e aqui também.

(ainda é preciso avisar que tem spoilers?)
(caso você ainda não tenha visto a série e se interessa, pule para o penúltimo parágrafo)


23 de maio de 2010: o mundo via o último episódio de uma das, se não a maior, série de todos os tempos. Quem nunca ouviu a palavra "escotilha" e não se lembrou de Lost? Quem nunca pensou, ou até tentou, arriscar os famosos números na loteria? Quem nunca imaginou, ao pegar um vôo, como seria cair numa ilha tão misteriosa quanto à da série? Lost se tornou referência na cultura ocidental (talvez até mundial?), ultrapassando os limites da televisão e mudando para sempre a maneira de se fazer séries.

Esse ano comemora-se 10 anos da estreia e já 4 anos do fim. A polêmica persiste: ou odiaram, ou amaram o final. Mas o grande consenso continua sendo de que Lost foi uma série fantástica. Pobre daquele que diz que "perdeu 6 anos da sua vida". Certa vez ouvi uma comparação interessante: se você namorou 6 anos e esse namoro acabou, você não perdeu esses anos, e restaram as lembranças dos bons momentos. Acredito que com Lost tenha ocorrido o mesmo, esse grande casamento de 6 anos. Valeu a jornada, e que jornada!


Quando a série ia ao ar, para os fãs, nada mais interessava. Era aquela ansiedade de chegar em casa correndo no fim do dia, baixar, ou até para muitos, ligar a tv no AXN ou até mesmo na Globo para apreciar mais um capítulo. Acontece que com Lost não era apenas isso: quando começavam os créditos do episódio é que a história de ser fã ia além. Blogs, fóruns, podcasts... era uma semana cheia de discussões, teorias, buscas por easter-eggs, sentar para rever o episódio, e pronto, outro dia de episódio inédito já havia chegado. Lost foi tão revolucionária que sites de legendas foram criados e aperfeiçoados para um trabalho mais rápido. A grande maioria das pessoas que hoje são aficcionadas por séries e baixam loucamente na internet começaram essa vida com Lost (caso da fã que vos escreve). A disseminação foi imensa e, atualmente, tantos sites sobre séries possivelmente só existem por causa de Lost, fóruns, comunidades...lugares onde os fãs podiam se encontrar para teorizar, comentar, e até se emocionarem juntos. Cheguei a ver casos de pessoas que se casaram por terem se conhecido pela internet através da série. A tecnologia também ajudava: com os avanços de computadores, tablets e celulares, as pessoas viam em todas as plataformas possíveis, no caminho de casa, no horário de almoço. Lost era assunto certo no trabalho, na escola, até em reunião de família.

O poder de Lost não parava por aí: fim de temporada e um longo e doloroso ano de espera. Mas é claro, com Lost nada nunca fica parado: era você sair de casa para se deparar com revistas em bancas que comentavam os grandes mistérios e até mesmo o sucesso da série, caso por exemplo da Superinteressante. Camisas, canecas, colares com o logotipo da Dharma acabaram também por surgir. E quando chegava a Comic-Con em San Diego? Era um evento tão esperado como a estreia da temporada: filas imensas e ansiedade fortíssimas para o painel de Lost. Atores vinham, produtores (os gloriosos Damon Lindelof e Carlton Cuse), previews eram exibidos, e muitas vezes rolava aparições surpresas e dicas de matarem os fãs do coração sobre os episódios que estavam por vir.


A premissa relativamente simples da série, um grupo de pessoas perdidos numa ilha, foi apenas um ponto de start para uma outra grande história. Há quem odiou o final, e queria respostas, queria Dharma e teorias da conspiração. Sem dúvida, isso tudo foi mega interessante e nos deixou com a pulga atrás da orelha (do Vincent também, não poderia perder a piada) por um longo tempo, mas não era o foco da série. O título Lost não se tratou apenas do fato dos sobreviventes estarem perdidos em uma ilha, mas sim perdidos na vida. Jacob deixou isso muito bem claro naquela épica conversa com os candidatos remanescentes na fogueira (6x16): nenhum deles tinha uma boa vida antes de irem para a ilha, e de uma maneira ou de outra acabaram se achando nela. Tem exemplo melhor do que o Jack barbudo no primeiro flashforward que vimos, totalmente deprimido e sem rumo depois de ter saído da ilha? Flashforward aliás que foi um dos momentos mais épicos, não só de Lost, mas da história da televisão... "We have to go back", simplesmente mind-blowing e inesquecível!

"Mas inventaram tudo de última hora e o último episódio tratou de um tema totalmente diferente do que a série mostrava". Muitos ainda argumentam mais ou menos por esse ponto. É claro, a série não foi planejada desde o início, lá em 2004 ninguém sabia o que iria virar aquela trama; as três últimas temporadas realmente mudaram bastante coisa. Entretanto, a série também trabalhou, desde o início ou no máximo a partir da segunda temporada, as ideias de destino, fé vs ciência, "te vejo em outra vida, brother", etc. Os flash-sideways, ou realidade paralela, já nos preparavam para a ideia, muito bem bolada na minha opinião, do que aconteceria no final. Recorro mais uma vez às palavras de um personagem, um bem especial aliás, Christian Shephard: só o nome do cara já é algo curioso, Kate até brinca com Desmond sobre isso (6x17), quando ele diz para Jack na igreja (uma das melhores cenas, para mim, de toda a série) que todos morrem um dia. E aquele período na ilha, aqueles anos em que eles conviveram juntos foram os mais importantes na vida de cada um. Todos precisavam se encontrar, se ajudar... e aquela reunião de boa parte do elenco na igreja foi muito, mas muito emocionante (quem não chorou?!). Já ouvi dizerem que foi um "final de novela", estilo Manoel Carlos, para agradar a dona de casa dentro de cada um, mas quer saber, eu não mudaria nada. Quanto às respostas, a vida não nos traz todas elas mesmo... (mas todos ficaram hiper curiosos quanto ao David "Gasparzinho" Shephard).


Uma questão curiosa hoje em dia é, quem nunca viu Lost, pergunta se vale a pena começar. Penso que quem acompanhou a série quando ela era exibida, teve uma experiência única, mais emocionante e mais bem vivida. Acredito que isso não seja verdade somente para Lost, mas sim para qualquer série: a ansiedade, a espera por uma nova temporada durante anos, as discussões, a vivência de fato da série, são fatores que diferem daquele de quem assistiu tudo de uma só vez. Vale a pena começar? Eu digo que sim, pois é uma história fantástica, com personagens apaixonantes, que te faz refletir, te emociona, te empolga, te deixa bravo também, te faz rir e chorar, muito! Por falar em personagens, esses mereciam um texto a parte, pois são tantos, e tão especiais, que nós fãs sentimos como se fossem amigos, queridos. O protagonista era Jack, mas todos tinham destaque. Questionando o público sobre qual seu personagem favorito, as respostas variam imensamente: Locke, Jack, Sawyer, Kate, Hurley, Charlie, Desmond... tal é a riqueza da série.

Há ou haverá uma série maior que Lost? Atualmente muitas séries fazem um sucesso estrondoso, talvez até maior que Lost, como Game of Thrones e a já terminada Breaking Bad (essa última que gera uma polêmica gigantesca quando comparada à Lost). Gêneros diferentes são difíceis de serem discutidos, comparados. A questão de gosto também entra forte. Mas vejo que a revolução causada por Lost demorará muito para ser superada. Enquanto isso, nos resta rever, ou ver para quem ainda não viu, a grande jornada. Desde o término em 2010, revi tudo com calma ano passado apenas. Daqui um tempo, pegarei novamente o piloto e seguirei, pois é uma história que vale sempre ser revisitada.

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