O Fim de Breaking Bad


Remember my name.

Era uma vez um professor de química de meia idade, desvalorizado, típico pai de família que dá o seu sangue, dia após dia, para cuidar de seu lar, trabalhando em dois empregos e sendo desvalorizado em ambos. Pra piorar, descobre que é portador de um câncer maligno e que tem poucos meses de vida. O que fazer? Morrer, simplesmente, e deixar sua família desamparada, sua esposa grávida, seu filho que passa por necessidades físicas, com dívidas... ou usar de sua genialidade desvalorizada para conseguir, pelo menos, deixar a sua família amparada financeiramente?

Todos compraram a briga de Walter White naquele momento. Muitos avalizaram a sua conduta. Ali, ele estava fazendo "justiça" com as próprias mãos, contra um mundo que trata mal pessoas dignas e honestas como ele. Claro, o lado obscuro que gerou suas ações nunca deixou de ser julgado. E sabíamos desde o início que pagaria por isso.

Walter acabou trazendo ódio aos telespectadores quando mudou de foco. Não precisava mais do dinheiro e, dominado pelo seu ego, orquestrou coisas horripilantes, principalmente quando foi incorporado pelo espírito de Heisenberg. Ali ele passou a pensar em si próprio, apenas, para saciar o seu ego. Mesmo as vezes usando da desculpa que estava fazendo tudo pela família. Ele gostava. Ele assumiu. Walter lutava contra a falta de valor e contra as pessoas que passaram ele para trás, sem limites, sem escrúpulos. E sabíamos que iria pagar por isso.

Ele conseguiu. Munido de armamento pesado, mas principalmente munido com a sua genialidade, Walter contra-atacou. Decidiu que não poderia mais esperar a morte e ver sua família sendo destruída, vendo Jesse sendo destruído e as pessoas que o feriram, mataram Hank, saindo ilesos. Motivado pela entrevista que assistira despretensiosamente num bar que outrora usaria para se entregar, Walter volta para Albuquerque e contra-ataca, mais uma vez usando de sua genialidade.

O episódio lembrou muito "Face Off", season finale da quarta temporada, quando Walter primeiramente tentou fugir, mas foi bloqueado por Skyler, pois ela tinha dado todo o seu dinheiro da fuga para Ted, forçando-o a encarar Gus de frente, e usar de sua genialidade química e persuasiva para destruí-lo.


Mais uma vez ele foi bloqueado por Skyler, que negou a fuga familiar, o deixando desamparado, culminando no contra-ataque que testemunhamos em "Felina". Walter bola mais um plano genial, volta para salvar sua família, confessar o paradeiro e a verdade sobre a morte de Hank, acabar com os crápulas neo-nazistas, matar Lydia, salvar Jesse e morrer. Espantosamente descobrimos que tudo isso se passou em menos de uma hora.

Ele morreu. De certa forma redentora. Consertando muitos dos erros que causou, mas não vai embora com a ficha limpa. O Walter de dois anos atrás tinha em mente a morte em paz, deixando a sua família amparada financeiramente. Foi o que vimos, claro, o fim talvez não justificasse os meios, mas Walter White vai embora com a missão cumprida.

Missão essa, suicida. Suicídio esse que quase ocorreu no piloto da série. Walter voltou sabendo de sua morte e se despediu das pessoas que amava, do jeito que podia. Walter sabia que iria morrer no plano que bolou para matar Jack e seus capangas, ou morreria pelas mãos de Jesse ou morreria de câncer. Mas se pudesse escolher a forma, escolheria a forma que vimos. Morto, dentro do laboratório, local que escolheu para viver, e que também acabou escolhendo para morrer.    

Ele morreu, conseguindo o que queria desde o início. Deixou bem mais dinheiro do que o planejado, mas deixou feridas que não sararão nunca mais naquele meio familiar. Em dois anos tudo foi por água abaixo e dinheiro nenhum resolveria. Mas ele deu o que podia dar. Todo o dinheiro que tinha, a segurança de volta para a sua família, e a sua morte.


"Nunca mais vou fazer o que você me disser", disse Jesse em episódios anteriores. Ele que comeu o pão que o diabo Heisenberg amassou, não optou por apertar o gatilho que levaria à morte imediata de Walter. Sabia que iria morrer e não fez o que pedia, preferindo que fosse embora da forma que o diabo quisesse. Porém, ao olhar para trás, parecia estar pensando o quão genial era aquela pessoa que dias atrás pedia a sua morte, principalmente ao ouvir que Lydia estava envenenada pela ricina. 

Jesse sai, de volta à vida, após matar a sua sede de vingança, chamada Todd, num final que dá margem para interpretações, mas prefiro imaginar que ele seguiu com o "sonho acordado" testemunhando por nós, e que optou por uma vida longe das drogas, possivelmente se mudando para o Alaska para que não fosse pego pela polícia.   


Breaking Bad encerra a trajetória de seis anos dando tudo que os telespectadores queriam. Um fim digno, perfeito, extremamente bem amarrado, ainda mantendo a maioria dos personagens que amamos vivos. Poucos morreram, se pensarmos bem, mas a morte muitas vezes não serve de punição e todos envolvidos nessa história foram punidos, exceto o telespectador, que acreditou numa série que vinha com uma premissa simples, irrisória, e que se tornou a melhor série de todos os tempos.

Obrigado Vince Gilligan. Obrigado Breaking Bad.

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