Pular para o conteúdo principal

#Cinema: Faroeste Caboclo


"Um insulto à obra de Renato Russo. Faroeste Caboclo desconstrói a história, exibe um final covarde e agridoce."

Se a intenção da adaptação de Faroeste Caboclo foi exibir um filme ok para pessoas que não conhecem a letra da música (existe?), conseguiram. Mas não era isso que ninguém queria, principalmente fãs da Legião. Queríamos lembrar da música e assimilá-la ao filme. Queríamos que o filme fosse uma ilustração  para qual imaginamos durante anos, mas infelizmente isso não poderá ser feito. Ao ouvimos agora o nome Faroeste Caboclo virá sempre a letra e música de Renato e esse filme deverá ser apagado de nossa mente.

Claro que teriam que incrementar algo que fizesse sentido à história e o filme incrementou bem em alguns momentos. Duvido que Renato Russo pensaria da forma dos roteiristas, mas enfim. Momentos surpreendentes foram exibidos e enriqueceu o filme, porém o que mais causou descontentamento foi o atropelamento na história, inversão e desconstrução. 

Primeiramente queria falar dos pontos positivos do filme. O cinema nacional vem melhorando freneticamente. O Brasil sempre teve excelentes atores, mas eram mal dirigidos, roteiros pífios e com exageros de palavrões. Sexo gratuito e sem nexo. Felizmente, apesar de que isso ainda acontece, estão mudando. Faroeste Caboclo foi muito bem produzido, nota-se claramente através do cenário, transições de imagens, efeitos visuais, câmera única bem filmada, trilha sonora bem inserida, enfim. Elenco principal muito bom, competente, com destaques, claro, para os protagonistas Fabrício BoliveiraÍsis Valverde. Antônio Calloni deu um show e Felipe Abib esteve bem.


As transições entre o passado e presente de João foi o principal ponto positivo do filme. Ao invés de contarem a história linearmente, voltavam sempre ao passado quando o roteiro pedia, ilustrando muito bem os motivos pelo qual João tornou-se o homem que é, aproveitando para mostrar diversos aspectos que a música demonstrou, com referências bem colocadas, sem forçação de barra.

Mas paro por aqui com os elogios. Focaram com um certo exagero no romance entre João e Maria Lúcia, mas em síntese foi bem ilustrado, porém não honrado em seu final.

Final. Que merda de final (desculpe o termo). Covardes.

A música diz claramente que o evento final foi "o maiúsculo evento". Jeremias e Santo Cristo duelaram em evento público, com a presença da imprensa, enfim. Uma espécie de "luta de Gladiadores". João é acertado pelas costas por Jeremias, Maria Lúcia corre para consolá-lo e entrega propositalmente a famosa winchester 22, arma que João dispara cinco vezes para matar Jeremias. João acaba morrendo devido o tiro levado pelas costas, nos braços de Maria Lúcia, quando a jovem se desespera de culpa e se suicida.

Não foi isso, nem de perto, o que o filme mostrou.


Na versão, Jeremias não leva a fama de covarde e encara João de peito aberto. Um duelo vencido por Jeremias, devido o perspicaz João ter sua atenção tirada bisonhamente por Maria Lúcia. Ela, como na música, vai consolá-lo, mas a arma não é entregue por ela e sim, pega por João. Isso faz toda diferença. Jeremias assassina Maria Lúcia por estar consolando seu amor, um dos maiores insultos à obra de Renato. João executa Jereminas com cinco tiros e o filme acaba com os dois mortos.

É um final pra ser esquecido. Mas temos que esquecer muitas outras coisas do filme para que a essência de Faroeste não seja denegrida. O personagem Maria Lúcia também foi desconstruído. Tentaram dar-lhe-a um ar de inocente, salvadora, mas a letra não diz isso. Maria Lúcia sofreu uma espécie de estupro e casou-se obrigada com Jeremias, na visão de Renato, consequentemente a gravidez. No filme acompanhamos Maria Lúcia viver meses com Jeremias para salvar a pele de João. A Maria Lúcia de Renato nunca viveria tanto tempo assim com um crápula  daqueles. Sem falar que João descobriu a gravidez na prisão, dois fatos terrivelmente acrescentados à história de Faroeste.

Enfim, talvez quem não conhecesse a história ou quem não sente a letra de Faroeste Caboclo tenha achado um filme até bom, mas uma adaptação não pode ser tratada dessa forma. Deveriam ser fiéis ao núcleo da letra, principalmente no seu final. É como se quisessem adaptar a Bíblia mas desconstruindo a morte de Jesus.  Legião Urbana para os fãs é uma espécie de religião, e uma blasfêmia dessas não é aceitável.

PS: Em tempo, notável a grande semelhança de João de Santo Cristo à Heisenberg. Só quem assiste Breaking Bad sabe do que estou falando.


E o povo declarava que João de Santo Cristo
Era santo porque sabia morrer
E a alta burguesia da cidade
Não acreditou na história que eles viram na TV

E João não conseguiu o que queria
Quando veio pra Brasília, com o diabo ter
Ele queria era falar pro presidente
Pra ajudar toda essa gente que só faz...

Sofrer...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Agenda de Séries

Agenda de séries:

Fique por dentro das séries que vão ao ar no dia nos Estados Unidos com essa super agenda.  Dúvidas, críticas elogios... Caso haja algum erro na agenda, mencione-o nos comentários.

Entendendo Game Of Thrones

Game of Thrones é uma série que acaba se tornando bem difícil de explicar, e isso ocorre justamente por causa da complexidade dos personagens, que são muitos, e pela quantidade de subtramas existentes. Então, meu objetivo com esse texto é fazer com que uma pessoa que nunca viu ou que não tenha entendido muito a premissa da série, entenda de forma clara qual a principal narrativa. Nesse texto não vou entrar em detalhes sobre os personagens e subtramas (senão você ficaria horas aqui lendo), apenas vou tentar mostrar a direção e o que a série propõe.
Como todos sabem, a série Game Of Thrones (produzida pela HBO) é a adaptação dos livros de fantasia épica escritos por George R.R. Martin, que são chamados de As crônicas de gelo e fogo. Já se passaram a 1° e 2° temporada, adaptando o primeiro (A guerra dos tronos) e o segundo (A fúria dos reis) livro, respectivamente. E nesse domingo é a estreia da terceira temporada, que irá adaptar a primeira parte do terceiro livro (A tormenta das espadas…

Especial: TOP 5 séries que você não deve assistir com a sua mãe

Olá, leitores! Hoje não é um dia qualquer, não é um simples domingo onde você, caro leitor, comerá um pedaço de pizza do sábado à noite no almoço, porque hoje é o dia das mulheres da vida de cada um de vocês, das mulheres que consideram sagradas. Hoje é dia das mães! O Viciado Em Série não poderia deixar de prestar sua homenagem, contudo, decidido a fazer algo diferente do bom e velho “TOP 5/10 Mães de Séries/Filmes”, segue o "TOP 5 Séries Que Você Não Deve Assistir Com a Sua Mãe".
5º Lugar - Game of Thrones

Uma série da HBO para maiores de 18 anos cheia de nudez, cenas de sexo, incesto, orgias, guerras, violência de todos os tipos, entre outras situações embaraçosas. Game of Thrones, definitivamente, não é o tipo de série para você assistir ao lado da sua querida e sagrada mãe, afinal, qual filho não fica constrangido diante uma cena de sexo em um filme aleatório sendo assistido junto dela? Agora imagina uma cena dessas entre dois irmãos... Pois é, MELHOR NÃO! 
4º Lugar – Tr…

O Fim da Saga Red John em "The Mentalist"

Por Jaqueline Pigatto
Chegou ao fim uma das maiores sagas dos seriados da atualidade. Patrick Jane finalmente colocou as mãos em Red John, o serial killer que matou sua esposa e filha. A série, que teve início há 6 anos, sempre focou na busca do protagonista por vingança, com Red John sempre alguns passos à frente, criando mais perguntas para as poucas respostas que conseguíamos, praticamente entrando na mente de Jane e roubando uma memória feliz, até conseguindo sua lista de suspeitos, revelada ao final da quinta temporada.
A partir dali sabíamos que o momento tão esperado chegaria. A produção confirmou: vamos descobrir nessa temporada quem é Red John. Os 7 suspeitos da lista eram personagens que frequentemente passavam pela série, em sua maioria policiais ou ligados ao governo. Pessoas de poder e influência. Mas poucos fãs acreditavam que realmente seria um daqueles. Sempre teve a teoria de que o Red John seria o próprio Patrick Jane. O bizarro Brett Partridge era uma das principais…

A Fantástica Última Temporada de The Killing

(Com spoilers)

Uma aula de como encerrar uma série.
The Killing recusava a nos deixar. Sofreu dois cancelamentos e foi resgatada duas vezes. Lutou contra os números de audiência, única coisa que interessava para o AMC, e conseguiu sobrevida graças à sua qualidade, prontamente reconhecida pelo Netflix. Ajudou na produção da terceira temporada e bancou sozinha a sua quarta, pois, felizmente, acreditou na série e não nos deixou órfãos, depois daquele excepcional cliffhanger.
Terminamos a terceira temporada presenciando Linden matar cruelmente (e merecidamente) Skinner, aos gritos de "NÃO" de Holder. Tempos depois fomos noticiados que não veríamos mais nada além daquilo, pois o AMC decidiu cancelar a série, fato que trouxe muita tristeza para o seu telespectador. É uma crueldade que fazem com o telespectador, mas é, infelizmente, uma prática comum na TV, pois não respeitam nada além de lucro, e deixam de contar uma história sem mais nem menos, se lixando para seus clientes. 
E a …