Doctor Who: "Hide" 7x09


"Eu sou o Doutor, e eu estou com medo."

Épico. É a melhor definição para esse momento. O último Time Lord, A Tempestade Vindoura, O Deus Solitário, disse essas palavras pela primeira vez. Um marco na história de Doctor Who, que foi apenas um detalhe desse episódio grandioso, o melhor da segunda parte da temporada até agora. Se preparem pois a review ficou bem grandinha, mas é impossível falar pouco desse episódio espetacular.

Uma das coisas mais legais em Doctor Who (uma das muitas) é o modo como grandes mitos da humanidade são desconstruídos e ganham uma roupagem completamente sci-fi, mas ao mesmo tempo sem tirar a mística por trás de suas origens. Desde o início da série vemos situações desse tipo, em que o Doctor revela o grande mistério de monstros famosos com uma explicação racional no melhor estilo Scooby-Doo. Alguns exemplos: "The Unquiet Dead" na 1a temporada, em que os fantasmas que assombravam Cardiff eram na verdade os Gelth, uma raça alienígena que havia perdido sua forma forma física durante a Time War (a mesma que dizimou os Time Lords); "The Shakespeare Code" na 3a temporada, em que as bruxas eram na verdade as Carrionite, humanoides que utilizavam uma ciência baseada nas palavras, as usando como um processo matemático para controlar a realidade; "The Vampires of Venice" na 5a temporada, com o culto de vampiras conhecidas como as Irmãs da Água, que eram na verdade Saturnyns, uma espécie aquática do planeta Saturnyne que conseguia assumir uma forma humana e sobreviver em terra firme mas precisavam consumir grandes quantidades de água, absorvendo-a dos humanos como vampiros. Esses são os exemplos mais significativos, e que agora tem mais um representante, "Hide" outra desconstrução do mito dos fantasmas, mas ainda mais genial e criativa.


Nesse episódio, o Doctor e Clara chegam à Calliburn House em 1974, uma mansão mal-assombrada no meio do nada. Dentro da mansão, o professor Alec Palmer, um caçador de fantasmas, e Emma Grayling, sua assistente sensitiva, estão procurando pela "Bruxa do Poço" um fantasma que assombra a mansão desde sua fundação há mais de 400 anos, com sua presença registrada através de fotografias. O Doctor então resolve viajar para épocas diferentes do mesmo ponto no espaço para registrar as aparições dela durante toda a história, e descobre que ela é na verdade Hila Tacorien, uma viajante do tempo descendente de Alec e Emma, que durante uma de suas viagens acabou presa em um universo compacto (pocket universe no original, um eco do universo) contendo uma grande ilha no espaço e várias estrelas e galáxias, e presa com ela está o Crooked Man, uma criatura medonha de origem desconhecida que a persegue, o que explica o porque de suas manifestações na mansão serem sempre pedidos de ajuda.


Foi um episódio de momentos, um conjunto de cenas espetaculares, que no final resultaram em um episódio genial, a começar pela excelente ambientação de uma história de fantasma autêntica. Cenas como as manifestações de Hila como fantasma, com Alec e Emma tentando capturar seus movimentos com a câmera, os pequenos vislumbres da criatura nas sombras da mansão (toda vez que aquele monstro aparecia eu tinha calafrios), foram cenas brilhantes que contribuíram para o engrandecimento como uma história de terror. Mas sem dúvida a melhor de todas as cenas foi quando o Doctor constrói um psiconógrafo para amplificar as habilidades psíquicas de Emma e conseguir abrir o Poço (na verdade um buraco de minhoca) para buscar Hila no universo compacto antes que ele se desfaça. Como bom cinéfilo, sempre tento pegar as referências cinematográficas nos episódios, e nesse vimos inspiração direta no filme Poltergeist - O Fenômeno, clássico de terror dos anos 80 (um dos meus favoritos) cuja cena em que Steven atravessa o portal para buscar sua filha Carol Anne do Além serviu fortemente de inspiração para essa cena, e ficou brilhante de uma forma que só Doctor Who consegue fazer.


Outra cena brilhante foi quando o Doctor e Clara estão viajando pelo tempo para registrar as aparições de Hila, desde a Pré-história até bilhões de anos no futuro, e Clara se dá conta do que é realmente a vida de um viajante no tempo, quando ela o confronta dizendo que para ele ela ainda não nasceu mas ao mesmo tempo está morta há 100 bilhões de anos, e completou com a frase que provavelmente fez muitos whovians sentirem um aperto no peito: "Então eu sou um fantasma. Pra você, eu sou um fantasma. Somos todos fantasmas pra você. Não devemos ser nada." Ele nega, então ela pergunta: "Então o que somos? O que podemos ser?" E então ele responde: "Vocês são o único mistério que vale a pena resolver". Claro que foi uma menção direta ao mistério da existência de Clara, mas também uma homenagem a todos os outros que o acompanharam durante esses 900 anos viajando. Uma cena linda de se ver, simplesmente linda.

Também foi super divertido de ver a relação conturbada entre a Clara e a TARDIS. Nós sabemos que a Sexy não se dá muito bem com coisas impossíveis, como já vimos com o Capitão Jack, que se tornou imortal depois de ser ressuscitado por Rose, e com a River Song, que adquiriu DNA Time Lord por ter sido concebida no seu interior, e quer alguém mais impossível que Clara Oswald? Uma garota que fica aparecendo em diferentes pontos do espaço-tempo, morrendo e retornando? As engrenagens dela devem entrar em polvorosa com tanta impossibilidade, mas aos poucos as duas estão se entendendo, e não vai ser mais preciso apelar para os xingamentos (principalmente vaca, um absurdo!). E a Clara tentando pilotar TARDIS foi impagável, parecia mais que ela estava tentando adestrar um cavalo selvagem, mas invés de um cavalo era uma nave espacial, e no lugar de um campo era o Time Vortex.

Segura, Clara!!
Mas se não bastasse, depois de tanta coisa bacana, ainda somos presenteados com um dos melhores clímax da série até hoje, quando o Doctor fica preso no universo compacto, sendo caçado pelo Crooked Man na floresta sombria e enevoada. Nunca antes vimos o Doctor apavorado daquele jeito, totalmente acuado como um animal sendo caçado, e aí ele diz a frase do início da review, nunca dita antes por ele: "I am the Doctor, and I am afraid." mas não para por aí! Depois que os dois estão de volta ao nosso universo, o Doctor vê de relance uma criatura igual ao Crooked Man na mansão, e aí tudo se encaixa: o vulto visto na casa na escuridão, o Crooked Man fazendo de tudo para sair do universo compacto... Ele queria sair para se encontrar com sua amada que estava na mansão. Depois de todo o terror que eles passaram, no final não era uma história de fantasmas, e sim uma história de amor. Genialidade pura! É disso que Doctor Who é feito, genialidade!

Todos merecem encontrar o amor, até os mais medonhos XD
Agora, vamos ao grande easter-egg do episódio, que com certeza trouxe muita alegria aos fãs de Fringe: depois de voltar das viagens, o Doctor explica que Hila está presa em um universo compacto (pocket universe), um eco distorcido do nosso, que acontecem às vezes mas nunca duram. E para exemplificar isso ele usa um balão azul para representar o nosso universo e um vermelho para representar o paralelo. Tinha como ser mais Fringe?? Bateu uma saudade imensa dessa série tão fantástica, que acabou recentemente e deixou uma marca nos corações de muitos fãs, com sua genialidade e grandiosidade. Fico muito feliz em saber que os roteiristas de Doctor Who também estão se inspirando na série, retribuindo o favor feito por Fringe, pois para quem não sabe, o universo paralelo de Fringe foi inspirado em Doctor Who, com dirigíveis e tudo mais.


Se o nível de qualidade se manter pelos próximos episódios, teremos o melhor restante de temporada de todos os tempos! Vamos ficar na torcida, principalmente para o próximo, "Journey to the Centre of the TARDIS, em que finalmente, depois de 50 anos da série, conheceremos o interior da TARDIS, aquela sexy thing! Contando os minutos para esse verdadeiro evento! Fiquem com as promos do episódio e até a próxima. GERONIMOOO!

(P.S: um detalhe que não comentei antes: depois de muito tempo o Doctor finalmente disse Geronimo! Saudades dessa catch phrase...)



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